Tambaqui entra na lista de risco de extinção e gera debate na Amazônia
Classificação do governo federal aponta vulnerabilidade da espécie, mas especialistas e políticos pedem cautela sobre impactos econômicos e ambientais.
O tambaqui (Colossoma macropomum), um dos peixes mais consumidos no Amazonas, foi incluído na Lista Nacional de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
A espécie recebeu a classificação de “Vulnerável”, alertando para o risco de redução populacional devido à pesca inadequada e à degradação das áreas de várzea. Estudos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade basearam a decisão, projetando uma possível queda de 30% a 40% nos estoques naturais entre os anos de 1978 e 2044.
Os dados revelam que o volume de peixes desembarcados no porto de Manaus caiu 90% entre 1976 e 1996, mesmo com o esforço de pesca sendo multiplicado por 4 no mesmo período. A projeção aponta uma redução global de 43,4% da população em 3 gerações, considerando que cada ciclo geracional dura 22 anos.
Atualmente, 61% das áreas de ocorrência do peixe estão desprotegidas, 21% ficam em Unidades de Conservação e 18% em Terras Indígenas. O monitoramento também constatou a raridade de larvas e indivíduos jovens em um trecho de 300 km no rio Solimões, indicando que muitos não atingem a fase adulta, quando chegam a pesar 45 kg, medir 120 centímetros e gerar mais de 1 milhão de ovócitos, o que evidencia o desrespeito ao tamanho mínimo de 55 centímetros permitido para a captura.
Apesar dos números alarmantes, o biólogo e doutor em Ecologia Aquática Edinbergh Caldas de Oliveira recomenda cautela na adoção de restrições severas. Ele explica que não existem levantamentos estatísticos amplos e definitivos sobre toda a bacia amazônica, ressaltando que exemplares de 30 kg ainda são capturados em algumas áreas menos exploradas.
O especialista alerta que a espécie migradora necessita de mais de 500 km de rios livres para desova e crescimento, sendo ameaçada não apenas pela atividade pesqueira, mas também pelo aquecimento global, construção de barragens e avanço do garimpo. Para ele, proibições extremas podem penalizar injustamente ribeirinhos e pescadores que dependem do recurso para sobreviver.
No cenário político, o senador Eduardo Braga apresentou o Projeto de Decreto Legislativo 767/2026 para tentar retirar o tambaqui da lista de risco, estipulada pela portaria 1.667/2026, onde o animal ocupa a posição 44 entre as 490 espécies avaliadas.
O parlamentar argumenta que a norma afeta severamente a economia da região, pois o texto não prevê qualquer prazo de transição e falha ao não diferenciar os peixes criados em cativeiro daqueles capturados diretamente na natureza.
Para conter a degradação, o órgão ambiental sugeriu uma moratória de 5 anos para a pesca comercial na Amazônia brasileira. Embora a expansão da piscicultura ajude a abastecer o mercado há cerca de 20 anos e reduza a pressão sobre os estoques selvagens, especialistas alertam que a atividade em cativeiro não elimina a urgência de conservar os ecossistemas naturais.
Existe o temor de que a sensação de abastecimento garantido provoque negligência com os rios, além do risco de que a fuga de peixes dos viveiros exponha as populações naturais a novas doenças e a sérios problemas genéticos.
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