Que brasileiro é esse? – Por Alexandre Garcia

Criou-se o mito de que o brasileiro é uma pessoa cordial, desde que o sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda assim decidiu. Não sei se sociólogos percorrem um país inteiro antes de tirar conclusões; se visitam cada aldeia, cada cidade, cada região, antes de tirar suas conclusões, ou se ficam lendo os livros das estantes para depois elaborar uma teoria que seja inédita para que os imortalize. Tão imortais se tornam que surgem seus intérpretes. Que agora explicam que o sociólogo usou cordial não para indicar docilidade, mas sanguinidade, já que o termo vem da bomba sanguínea, cor, coração, em latim. Não acredito. Cordial vem mesmo de cor – alguém com bom coração, bondoso.

Alexandre Garcia Articulista - da agência “Alô Comunicação”
Alexandre Garcia Articulista da agência “Alô Comunicação”

Ora, direis, a prova dessa bondade é a devolução das mercadorias saqueadas em Abreu e Lima, na grande Recife. Ah, sim? Mas quem é esse brasileiro que, ao perceber que não estava sob o olhar da polícia, aproveitou a greve da PM para promover saques? Não é esse mesmo brasileiro que na escola rompia as regras ao perceber que a professora não estava olhando? Na escola que esqueceu de suprir as lições de civismo que as crianças deveriam ter tido em casa. Ainda tive a sorte de ter família e grupo escolar que me ensinaram a respeitar as leis e os direitos alheios. Mais do que isso, ensinaram-me – o grupo escolar aí incluído – que antes dos direitos vêm os deveres.

O caminhão que enguiça na avenida Brasil é logo saqueado pela vizinhança. Bem significativo que seja na avenida com o nome do país, porque isso é geral. Outro dia, na subida da serra para Petrópolis, um caminhão com frango congelado capotou. Não foi apenas a vizinhança pobre da estrada que roubou a carga. Carros de luxo também pararam e senhores pais-de-família trataram de recolher sua parte no botim. Portanto, não se trata de pobre ou rico ou classe-média; mas falta de formação cívica em casa e na escola. E as elites são mais responsáveis, porque volta e meia dão seus maus exemplos de corrupção envolvendo milhões.

Em Abreu e Lima se percebe um restinho de esperança: em muitas famílias, por falta de formação da geração mais jovem, os filhos roubaram lojas e veículos, mas as mães, escandalizadas, os fizeram devolver, para evitar que a casa, o lar, se converta num valhacouto.  Por toda a parte, neste país, notam-se atitudes semelhantes aos dos saqueadores, ou seja, se houver oportunidade, rouba-se – usando bermudas ou gravata. Esse brasileiro, como eleitor, decide na urna que seu representante vai ser um seu semelhante . Por isso não reage como deveria quando recebe notícias dos escândalos, desvios, corrupção. O brasileiro cordial pensa que é esperto, mas é um bobo, que vive mal, elege mal e acha que isso é normal.

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