Em primeiro discurso após ser solto, Lula anuncia volta à política, ataca Bolsonaro e a Lava-Jato

Em seu primeiro discurso depois de deixar a cadeia em Curitiba, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou sua volta à arena política com promessa de viagens pelo Brasil com o intuito de defender um novo projeto para o país. Ele fez ataques ao governo Bolsonaro e aos responsáveis pela sua condenação pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, como o ex-juiz Sergio Moro, representantes da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.

O ex-presidente voltou a defender sua inocência, disse crer que “dignidade não se compra em shoppping center, em feira ou bar”, e que a sua teria sido ferida por seus acusadores. Lula prometeu “lutar para melhorar a vida do povo brasileiro”, que segundo ele “está uma desagraça”, e ser contraponto ao governo Bolsonaro.

– Se pegar o Dallagnol, o Moro, alguns delegados que fizeram inquérito, enfiar um dentro do outro e bater no liquidificador, o que sobrar não é 10% da honestidade que eu represento neste país – disse o ex-presidente que se referiu aos agentes como “lado podre” de instituições que trabalharam, em seu entendimento, “para tentar criminalizar a esquerda, o PT e o Lula”.

O ex-presidente Lula deixa a sede da Polícia Federal em Curitiba após ficar 580 dias preso, acusado de corrupção Foto: Marcelo Andrade / Agência O Globo
O ex-presidente Lula deixa a sede da Polícia Federal em Curitiba após ficar 580 dias preso, acusado de corrupção Foto: Marcelo Andrade / Agência O Globo
Ao lado da namorada, Lula faz sinal de "Lula Livre" ao sair da prisão em Curitiba Foto: HENRY MILLEO / AFP
Ao lado da namorada, Lula faz sinal de “Lula Livre” ao sair da prisão em Curitiba Foto: HENRY MILLEO / AFP

Em um discurso breve em palanque montado em frente à sede da PF, o ex-presidente brincou dizendo que o presidente Jair Bolsonaro deveria bater continência para seu segurança, o capitão Valmir Moraes da Silva, que teria entrado para a reserva com patente superior à de Bolsonaro, antes dele virar presidente. Lula atacou a gestão do político do PSL:

– Depois que eu fui preso, o Brasil não melhorou, o Brasil piorou. O povo está passando mais fome, o povo não tem mais trabalho, o povo tá trabalhando de Uber, tá trabalhando de bicicleta para entregar pizza, tá trabalhando sem o menor respeito – criticou.

De acordo com o IBGE, a extrema pobreza atingiu 13,5 milhões de pessoas no último ano, maior nível dos últimos sete anos. Estudo da FGV também apontou o mais longo período de aumento de desigualdade da história, com concentração de renda crescente há mais de quatro anos. O desemprego ainda atinge 12 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, em 2019 o país assiste a uma no número de crimes violentos, em especial no número de homicídios. Neste ano também foi criado o 13º do Bolsa Família.

Lula leu em uma folha branca o nome de colaboradores que mantiveram a organização do acampamento Lula Livre e agradeceu a lideranças petistas, como a presidente do PT, Gleisi Hoffman e o ex-candidato a presidente da República, Fernando Haddad (PT), além de partidos aliados, como Psol e PCdoB.

Para Lula, Haddad não foi eleito presidente “porque a eleição foi roubada”, numa referência à acusação de uso de disparos massivos de mensagens de WhatsApp pela campanha de Bolsonaro no pleito de 2018. O episódio é apurado no âmbito do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

– Eu imaginei que quando eu saísse, eu ia poder encontrar cada companheiro da vigilia (Lula Livre) e dar um abraço e um beijo. Vocês nao têm noção do que representaram para mim. Fiquei mais fortalecido, mais corajoso – disse o ex-presidente.

– Vocês eram o alimento da democracia que eu precisava para resistir à safadeza e à canalhice que um lado podre do estado brasileiro fez comigo e com a sociedade brasileira” – discursou o petista.

 

Lula deixou na tarde desta sexta-feira a carceragem da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, depois de passar 580 dias em cela improvisada para o cumprimento da pena imposta a ele pela Justiça Federal.

– Eu saio daqui sem ódio. Aos 74 anos meu coração só tem espaço para amor porque é o amor que vai vencer neste país – disse o ex-presidente à militância.

Condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro relacionados a reformas realizadas em seu benefício pela Construtora OAS em um apartamento tríplex no Guarujá (SP), o ex-presidente é um dos quase 5 mil presos beneficiados por alteração da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), que agora não mais permite o cumprimento automático de pena de condenados em duas instâncias judiciárias.

Ao deixar a sede da PF, o petista cumpriu a promessa feita nos últimos dias e dirigiiu-se ao acampamento “Lula Livre”, localizado em frente ao prédio da polícia, para agradecer a militantes que realizaram eventos em sua solidariedade todos os dias desde a sua prisão. Estão previstos atos políticos com sua presença nos próximos dias também em São Bernardo do Campo (SP).

O alvará de soltura foi expedido pelo juiz Danilo Pereira Júnior, substituto na 12ª Vara de Execuções Penais, responsável pelo acompanhamento do processo do ex-presidente. No despacho, o magistrado determinou que autoridades e advogados do réu ajustassem os “protocolos de segurança para o cumprimento da ordem, evitando-se situações de tumulto e risco à segurança pública”.

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