A tragédia precisa ser investigada – Por Alexandre Garcia

Em qualquer país do mundo, a morte de um candidato à presidência da república cobra rigorosa investigação. As dúvidas não podem ocupar no ar o lugar do avião que caiu. Se a caixa-preta não tem gravação, vai ser preciso explicar que o candidato pediu para desligar, para que não registrasse as conversas na cabina. Se o avião era de excelência, tinha combustível e os pilotos bem-preparados, vai ser preciso explicar se foi algum erro humano, como recolher o flap (aberto para o pouso) acima de 200 nós, o que faz aquele avião mergulhar repentinamente. A baixa altura, não se recupera. Enfim, é preciso esclarecer.

Alexandre Garcia Articulista - da agência “Alô Comunicação”
Alexandre Garcia Articulista – da agência “Alô Comunicação”

Em poucos países do mundo se desfruta de um enterro como no Brasil. Assim foi com Tancredo, Airton Senna, Mário Covas, Luís Eduardo Magalhães ou do nosso Ulysses que não voltou do mar. Agora o que se viu foi de novo um longo réquiem, 24 horas por dia, em todos os meios de informação. Detalhes íntimos do sofrimento das famílias, entrevistas com os coveiros, reportagens sobre o cemitério, notícias macabras sobre o tamanho dos restos dos mortos. Adversários e até inimigos se apresentam como admiradores eternos; penetras que só querem aparecer, hipocrisia mais epidêmica que o ebola. Veneramos os mortos, desprezamos os heróis. Perdemos a chance de carregar em carro de bombeiro o nosso campeão mundial em Matemática, o premiado Artur Ávila Cordeiro de Melo, sob papel picado das avenidas Rio Branco e Paulista.

A raça brasileira como é popularmente considerada, junta o banzo africano, o luto português e a melancolia indígena — e a gente adora uma tragédia e até a festeja com música, como foi agora, repetindo os enterros de Tancredo e Airton. E a política se integra a isso. O PSB chama a viúva de sua maior líder e tentou levá-la para a chapa com Marina. Uma solução familiar, como na Idade Média. Marina já está mais no noticiário que todos os candidatos juntos. Política feita com emoções, que sempre atrapalhou soluções racionais. Os resultados são Jânio, Collor, Lula. Agora aparece Marina.

A frase da última entrevista de Eduardo já é repetida com eufórica exaustão: “Não vamos desistir do Brasil”. É uma frase para combater desespero, para sacudir os que não aguentam mais e já estão a ponto de desistir. Uma frase pronunciada por um candidato, em momento de grande audiência, certamente pensando no que iria encontrar em 2015 se fosse eleito. No ano que vem, nos espera um país precisando de UTI que evite mais tragédia.

 

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