Dia de São João Batista, final de tarde.  Estamos num bairro da cidade de Manaus que faz parte da Cidade Nova. A pequena comunidade católica se reúne para dar início à procissão em honra de seu padroeiro. A imagem está enfeitada e desfilará solenemente pelas ruas do bairro, num andor colocado em cima de um carro. A procissão tem início às dezessete horas, final de expediente, quando a maioria das pessoas está saindo do trabalho e não consegue chegar. Talvez esta seja uma das explicações para a ausência dos homens, que de fato chegariam mais tarde, quando o cortejo já estava na Igreja. É o momento da volta a casa, e isto foi sentido quando o povo entrou numa avenida de tráfego intenso naquela hora de retorno e início de aulas noturnas. Mas esta é a hora que começam as procissões nas comunidades ribeirinhas de onde vem a tradição da devoção ao santo. Mudar este horário é quase impossível.

Dom Sérgio Castriani - Arcebispo Metropolitano de Manaus

Dom Sérgio Castriani – Arcebispo Metropolitano de Manaus

Na casa em que foi enfeitada a imagem mora uma família católica que já pela terceira vez oferece o seu lar para o início da celebração. Fazem isto em ação de graças porque casaram num dia de São João. Neste ano celebravam cheios de gratidão quinze anos de vida matrimonial. Lentamente tem início a caminhada de fé. Fizemos três paradas. A primeira na casa da primeira catequista da comunidade, anciã respeitada por todos e memória viva da história de fé daqueles homens e mulheres que vindo de lugares diferentes ali realizaram o sonho da casa própria, criaram filhos, fizeram amizades e, sobretudo guardaram a fé tantas vezes perdida ao chegar à grande cidade. A segunda e a terceira paradas foram para pedir saúde para duas senhoras idosas sentadas à frente de suas casas. Ao mesmo tempo se rezou por todos os doentes.
Em todo o trajeto se fizeram orações. As intenções exprimiam as preocupações das pessoas que caminhavam. Rezou-se muito pela juventude, especialmente para que não seja vítima da droga e não caia na malha mortífera do crime organizado. A violência que amedronta e apavora as pessoas foi lembrada e se pediu a Deus paz para as famílias.  Aos poucos também os animadores da procissão iam fazendo uma verdadeira catequese, apresentando a vida e a mensagem de João Batista, insistindo de maneira especial na exigência de justiça que aparece na sua pregação e no convite que faz a conversão. Cantamos muito. A letra dos cantos mostrava uma Igreja fiel à tradição, mas comprometida com a luta do povo por saúde, segurança, trabalho e moradia.

De repente começaram a cantar Asa Branca. Nos meus já longos anos acompanhando procissões nunca tinha visto aquilo. Mas foi tão natural e para mim foi o ponto alto do evento. Naquele momento, naquela rua quente da periferia de Manaus fiz a experiência da inculturação da fé e vislumbrei a contribuição que a fé traz à cultura. A vida é uma só, embora tenha múltiplas facetas. Os pobres sabem vivê-la como uma unidade e as nossas procissões são momentos de vida intensa onde o divino se humaniza e o humano se transcende. Oxalá a vida urbana não extinga a chama da fé e que a sua agitação não acabe com nossas procissões.

 

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