Especialistas temem que robôs sexuais alterem nossa percepção sobre consenso

A Foundation for Responsible Robotics, organização que analisa a ética por trás de um setor que vem se desenvolvendo cada vez mais ferozmente, arquitetou um estudo para para tentar compreender qual será o impacto dos robôs sexuais na sociedade, e o trabalho trouxe algumas conclusões animadoras e várias assustadoras.

Na parte positiva, especialistas acreditam que esse tipo de máquina será útil para idosos, pessoas que tiveram experiências sexuais traumáticas e homens em quadros como disfunção erétil ou ejaculação precoce.

Personagens de ‘Westworld’
(Foto: Reprodução)

“Se estamos falando sobre indivíduos que não são apenas inválidos, mas que tenham sido traumatizados, de certa forma, esse poderia ser um instrumento benéfico para manter seu processo de cura [sexual]”, disse ao The Guardian a doutora Aimee van Wynsberghe, que é cofundadora da FRR e professora-assistente de ética e tecnologia na Technical University of Delf.

Há um aspecto que marca a virada do lado bom ao ruim: o uso de robôs sexuais como válvula de escape para pessoas com histórico de assédio. Tem quem acredite que seja possível aliviar desejos obscuros em máquinas, descontando, por exemplo, a pedofilia em um boneco que tenha feições infantis. Existe até uma empresa no Japão que provê esse tipo de produto, a Trottla, e ela é tocada por um pedófilo autodeclarado que, em entrevista concedida ao The Atlantic em 2016, disse que o uso do recurso o ajudaria a se manter longe de crianças reais.

A lógica se aplica a casos de estupro em geral, outra questão que gera preocupação para quem analisa o setor. Há, por exemplo, o caso da RoxxxyGold, uma empresa do ramo que possui um modelo de robô com personalidade “reservada e acanhada”. A descrição do produto diz que, “se você tocá-la em uma área privada, é mais do que provável que ela não aprecie muito a sua iniciativa” — o que levantou preocupação de que o robô fosse um simulador de estupro, a exemplo do que retrata a série “Westworld”, da HBO.

“Algumas pessoas dizem: ‘Ora, é melhor que eles estuprem robôs do que pessoas reais.’ Este é um dos argumentos… você pode ter [sexo] proveitoso com a sua esposa — tudo bem —, mas, quando se trata de estupro, [se] você tem uma fantasia de estupro, vai lá e estupra um robô”, destrincha Noel Sharkey, outro cofundador da FRR e professor emérito de robótica e inteligência artificial na University of Sheffield, que ressalta: “Mas há outras pessoas dizendo que isso vai apenas encorajar mais os estupradores.”

Patrick Lin é um desses. Diretor de ética e ciências emergentes na California Polytechnic State University, ele traçou um paralelo entre o uso de robôs para alívio sexual com racismo: “Tratar pedófilos com crianças-robôs sexuais é ao mesmo tempo uma ideia dúbia e repulsiva. Imagine tratar racismo deixando que um intolerante maltrate um robô negro. Isso funcionaria? Provavelmente não.”

Há ainda o temor de que, em vez de “aliviar” estupradores, essas máquinas acabem servindo de gatilho para aflorar o problema em níveis mais brandos, já que a falta de ação dos bonecos poderia mudar a percepção humana em relação a consentimento. Sem contar que, embora os robôs sexuais estejam sendo feitos nos dois sexos, a versão feminina é toda moldada em padrões da indústria pornográfica, o que pode contribuir para aumentar a objetificação da mulher.

 

Com Informações do Olhar Digital

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