17º Domingo do Tempo Comum – O tesouro escondido no campo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo
Mateus (Mt 13, 44-52)

Diz Nosso Senhor, no Evangelho deste Domingo, que “o Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo”. Como interpretação para esse versículo, serve-nos de guia Santa Teresinha do Menino Jesus, que, em uma carta para sua irmã Celina, indica o “tesouro escondido no campo” como o próprio Jesus:

Minha Querida Celinazinha,

A tua carta encheu-me de consolação, o caminho que segues é um caminho real, não um caminho trilhado, mas é um atalho que foi traçado pelo próprio Jesus. A esposa dos Cânticos (cf. Ct 3, 1-4) diz que, não tendo encontrado o seu Bem-amado no seu leito, levantou-se para procurá-lo na cidade, mas foi em vão; depois de ter saído da cidade, achou Aquele que sua alma amava!… Jesus não quer que encontremos no repouso a sua adorável presença, esconde-se, envolve-se em trevas (cf. Sl 17, 12); não era deste modo que ele procedia com a multidão dos judeus, pois vemos nos evangelhos “que o povo ficava arrebatado quando Ele falava” (Lc 19, 48). Jesus encantava as almas fracas com suas divinas palavras, procurava torná-las fortes para o dia da provação… Mas como foi reduzido o número dos amigos de Nosso Senhor quando Ele se calava diante dos juízes!… (cf. Lc 23, 9) Oh! que melodia para o meu coração este silêncio de Jesus… Faz-se pobre a fim de que possamos fazer-lhe caridade, estende-nos a mão como mendigo (cf. Mt 25, 31), a fim de que, no dia radioso do juízo, quando aparecerá na sua glória, possa fazer-nos ouvir estas doces palavras: “Vinde, benditos do meu Pai, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me hospedastes; andava nu e me vestistes, estava doente e me visitastes, estava no cárcere e foste ver-me” (Mt 25, 34-36). Foi o próprio Jesus que pronunciou estas palavras, é Ele que quer o nosso amor, que o mendiga… Põe-se, por assim dizer, à nossa mercê, Ele não quer senão aquilo que lhe damos e a mais pequena coisa é preciosa aos seus divinos olhos…

[v] Minha querida Celina, regozijemo-nos pela nossa parte, é tão bonita, demos, demos a Jesus, sejamos avaras para os outros, mas pródigas para com Ele…

Jesus é um tesouro oculto (cf. Mt 13, 44), um bem inestimável que poucas almas sabem encontrar, pois ele está escondido e o mundo gosta do que brilha. Ah! se Jesus tivesse desejado mostrar-se a todas as almas com seus dons inefáveis, sem dúvida, nem uma só o teria rejeitado, mas não quer que o amemos pelos seus dons (cf. Gn 15, 1), é Ele mesmo que deve ser a nossa recompensa. Para encontrar uma coisa escondida é preciso a gente também esconder-se (cf. João da Cruz, CB, 1, 9); portanto, nossa vida deve ser um mistério, é necessário parecer-nos com Jesus, cujo rosto estava oculto… (cf. Is 53, 3) “Quereis aprender alguma coisa que vos sirva”, diz a Imitação: “Querei ser ignorados e tidos por nada” (I, 2, 3)… e em outra passagem: “Depois de ter deixado tudo, é preciso cada um se deixar a si mesmo” (II, 11, 4), embora alguém se vangloria de alguma coisa, um outro de outra coisa, ponde a vossa alegria apenas no desprezo de vós mesmos” (III, 49, 7). Como estas palavras dão paz à alma, minha Celina, tu as conheces, mas não sabes tudo aquilo que eu quereria dizer?… Jesus te ama com um amor tão grande que, se tu visses, ficarias num arrebatamento de felicidade que te faria morrer, mas não o vês e sofres…

Em breve Jesus “levantar-se-á para salvar todos os mansos e os humildes da terra”!… (cf. Sl 75, 10). [1]

“Jesus é um tesouro oculto”. Mas, se Ele está oculto, onde procurá-Lo? De acordo com São João da Cruz, Ele se esconde dentro da própria alma:

Ó alma, formosíssima entre todas as criaturas, que tanto deseja saber onde está o teu Amado para te encontrares e te unires a Ele, já te foi dito que tu mesma és o aposento onde ele mora, o refúgio e o esconderijo onde Ele se oculta.

[…] Mas também perguntas: “Então, se Aquele que a minha alma ama está em mim, porque é que não O encontro nem O sinto?” A razão disso é que Ele está escondido, e tu não te escondes para O encontrar e sentir. Quem quiser encontrar uma coisa escondida, há de penetrar escondido no lugar onde ela está escondida: ao encontrá-la, fica tão escondido como ela. Portanto, uma vez que o teu Amado é o tesouro escondido no campo de tua alma, pelo qual o sábio comerciante entregou tudo (Mt 13, 44), convirá que tu, para O encontrar, esquecidas todas as tuas coisas e alheando-te de todas as criaturas, te escondas no teu refúgio interior do espírito e, fechando atrás de ti a porta, isto é, a tua vontade a todas as coisas, ores a teu Pai em segredo (Mt 6, 6). E ficando assim escondida com Ele, senti-lo-ás no escondido, amá-lo-ás e possui-lo-ás no escondido, e escondidamente te deleitarás com Ele, mais do que aquilo que a língua e os sentidos podem alcançar. [2]

Para que nos encontremos com Jesus, é preciso que nos recolhamos interiormente. A parábola diz que o homem “vende todos os seus bens” por causa do que encontrou. Isso significa, sobretudo, renunciarmos a nós mesmos, aos nossos gostos, caprichos e vontades. Afinal, tendo descoberto esse amor que nos redimiu e salvou, não nos pertencemos mais. Se quisermos, pois, encontrar Jesus, precisamos dar tudo e dar-nos a nós mesmos, como diz Santa Teresinha: “Aimer c’est tout donner et se donner soi-même. – Amar é tudo dar; depois, dar-se a si mesmo” [3].

Como fazer isso na prática? É preciso que nos unamos a Jesus escondido, escondendo-nos junto com Ele. Santa Teresinha toma a decisão vocacional de ocultar-se no Carmelo, mas, mesmo que não sejamos chamados para a vida de clausura, é necessário que tenhamos um “quarto interior”, uma “cela” onde nos possamos esconder. Escreve Teresinha, em outra poesia:

“Vivre d’Amour, c’est vivre de ta vie, / Roi glorieux, délice des élus. / Tu vis pour moi, caché dans une hostie / Je veux pour toi me cacher,ô Jésus ! / A des amants, il faut la solitude / Un cœur à cœur qui dure nuit et jour / Ton seul regard fait ma béatitude / Je vis d’Amour !… – Viver de Amor é viver da Tua vida, / Delícia dos eleitos e glorioso Rei; / Vives por mim numa hóstia escondido, / Escondida também por Ti eu viverei! / Os amantes procuram sempre a solidão: / Coração, noite e dia, em outro coração; / Somente Teu olhar me dá felicidade: / Vivo de Amor!” [4]

Pode parecer estranho que Nosso Senhor, ao mesmo tempo em que se faz carne e habita no meio dos homens, se oculte. No entanto, Ele quer que seja assim para que O busquemos não tanto pelo desejo de recompensas, como por Ele mesmo; mais que nos amar, Ele deseja receber o nosso amor. Deus se rebaixa, torna-se de alguma forma dependente das migalhas de nosso amor, pois sabe que só assim nos tornaremos semelhantes a Ele e participaremos de Sua divindade.

Para tanto, precisamos nos convencer da necessidade da oração. Não é possível sermos cristãos sem rezar e cultivar a vida interior, sob o risco de transformarmos a religião em um farisaísmo. O que nos torna seguidores de Cristo não é um conjunto de normas ou um código de práticas exteriores, mas uma atitude interna de amor a Nosso Senhor.

 

Referências

  1. Santa Teresa do Menino Jesus, Carta,145, para Celina, 02/08/1893
  2. São João da Cruz, Cântico Espiritual B 1, 7. 9
  3. Poesias, 54 (Porque eu Te amo, Maria – Maio de 1897), estrofe 22
  4. Santa Teresa do Menino Jesus, Poesias, 17 (Viver de Amor, estrofe 3)

Fonte: https://padrepauloricardo.org/

 

 

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